Esta é mais uma edição em que o 360 aposta no conteúdo. E aposta também que há leitores que se interessam por matérias bem apuradas, bem escritas, aprofundadas. Pois este é o cardápio de mais uma edição.São longos textos, e não são longos porque queremos martirizar nosso público. Não trabalhamos com o factual, com o texto objetivo e normalmente curto da notícia. O que fazemos são matérias especiais. E fazemos profissão de fé que um texto bem escrito, bem cuidado, pode ser saboroso ao leitor.
A reportagem de capa é um perfil sobre o ex-prefeito de Frutal, Alceu Silva Queiroz. Alceu é uma personagem polêmica em nossa política. Mesmo estando há mais de 20 anos longe das urnas, ainda existem os alceusistas doentes e os anti-alceusistas declarados. Mas é inegável sua importância em nossa história e as marcas que deixou na cidade. Esta matéria permite conhecer um certo Alceu. Por certo ainda existem vários Alceus, que outros poderão revelar.
Priscila Minani, repórter do 360, tem pai bombeiro. Quando resolvemos fazer uma reportagem sobre o dia a dia da corporação aqui em Frutal, obviamente que esta pauta seria dela. Mais uma vez, entrega um competente trabalho.
Os sonhos e os caminhos que se colocam para os garotos que querem ser os nossos futuros Ronaldinhos e Neymares é o tema da reportagem de esporte da edição, por Rafael Del Giudice Noronha, um talento que desponta com pinta de craque no jornalismo.
A repórter Thaís Fernandes foi nossa enviada especial ao SWU e nos conta a impressão e a experiência de um grupo de jovens que saiu de Frutal e foi curtir este grande festival de música.
Mas quem mais trabalhou nesta edição foi a repórter Mariana Nogueira. São delas as fotos do perfil de Alceu, a reportagem sobre um passeio gastronômico pelo mercado municipal da bela Florianópolis e a matéria especialíssima do caderno Bis, a primeira do 360 em três páginas, que retrata a vida dos universitários nas repúblicas que se espalham por Frutal. Prestes a iniciar o terceiro ano de jornalismo, Mariana já produz como uma veterana.
Os ótimos textos destes colaboradores e o trabalho estupendo feito pelo Eduardo Uliana na parte visual são a alma do 360. É material de primeira. Confiram e vão concordar.
Lausamar Humberto - Editor
Por Lausamar Humberto, Rafael Del Giudice Noronha e Priscila Minani
“Você é da igreja? Tem cara de gente da igreja, de crente.”
“Não, não sou da igreja.”
“Mas crê, não é? Todo mundo tem que crer em Deus.”
Foi assim o primeiro diálogo entre Alceu Silva Queiroz e o editor do 360. Marcada a entrevista, ele nos esperava na porta de sua casa vestido com uma calça de tecido leve, com uma cor pendendo para o bege, sapatão e camisa solta, para fora da calça. Cumprimentos e saudações, e somos encaminhados por ele ao fundo de sua casa. Alceu tem o andar suave e os passos curtos de quem já viveu muito. Chegado ao local da conversa, ele ajeita o sofá de maneira que fiquemos bem acomodados em um ângulo favorável: frente a frente. Assim se dará o desenrolar da prosa.
A política ainda domina seus pensamentos. Mal sentamos e já quer falar sobre a situação atual da política frutalense e as eleições do ano que vem. Informa que no dia anterior estava em uma reunião, mas que não nos diria com quem ou o que foi conversado. A opinião do ex-prefeito sobre a eleição e o que foi esta reunião “secreta” o leitor lerá no box em destaque.
O personagem
Alceu nasceu em Frutal, na Fazenda Cerradão, onde morou até “amadurecer e tomar conta do próprio nariz”. Terceiro dos 11 filhos de Francisco Batista Queiroz e Olívia Januária de Jesus, nascido no dia 11 de dezembro de 1926 - “novinho, né?”, ri o entrevistado. Com 85 anos, está totalmente lúcido e permanece muito bom de conversa, sempre entremeada por algumas anedotas.
Sua casa é grande e confortável. Mora nela há 30 anos, mas hoje mora “de bera”; considera que a casa é de seu filho. Mas antes de assentar neste endereço mudou 36 vezes. Quando comprou a casa era uma casa mais miudinha, estava novinha, cheirando a tinta. Custou caro, foi um negócio ruim e não melhorou com tempo. Mas a esposa já não aguentava tantas mudanças. Para acalmá-la, disse que a casa era dela. Passou uns dias, apareceu bom negócio; queria vender, mas a esposa não quis e não deixou: “você me deu a casa”.
Lida com as marcas do envelhecimento com graça. Mostra-nos que, apesar da idade, seu rosto não apresenta rugas, para o desespero e inveja das senhoras de 40 que não têm a mesma sorte. Só no pescoço, e para esconder é só manter a camisa abotoada. Já a coluna está toda enrugada, herança de um acidente de automóvel em São Francisco de Sales de há muitos anos. Dormiu, acordou com o carro “avoando”...”que dor”. As pessoas o tiraram de dentro do carro. No médico, nem radiografia tirou. Sarou com o tempo. Recentemente fez ressonância magnética. A marca do acidente tá lá, na coluna.
Da infância, tem boa lembrança. E reflete: “depois que a gente fica velho a gente tem lembranças de coisas ruins que você tem saudade. Não tem nada pior do que carrear com carro de boi. E eu tenho uma saudade doida. Aquilo tombava, milho caia no córrego e eu lembrando do véio bravo...o pai era uma onça”.
Do relacionamento com os irmãos, as dificuldades não são escondidas: “dizer que o relacionamento é cem por cento é mentira. A família tem gênio; ficam sem conversar; mas na hora do chega, do aperto, os irmãos tão aí...”
Primeiro passos na política
A política verdadeira, de urna, chegou tarde. Beirava os 35 anos quando foi candidato a primeira vez a vereador, em 1961. Neto de coronel, de título comprado, e com o pai integrante da UDN (União Democrática Nacional), esta iniciação foi inevitável. E entrou numa época onde quase ninguém tinha pretensões de ocupar um cargo de vereador. “Eu não queria, assim como nenhuma outra pessoa. Para arrumar um candidato a vereador tinha que ir uma turma para cercá-lo e não deixar fugir. Naquela época, vereador não recebia salário.
Mas quando te jogam numa eleição, você quer ganhar.” Como o povo vivia em dificuldade, nos meses da política era muita “pedição”. Não estava acostumado com aquilo e achou custoso.
Desse mandato não guarda as melhores recordações. “Vereador não apita nada”. Seu compadre tinha uma rádio, que começou a transmitir a reunião da Câmara. Muito falador, fazia um barulho danado. Ficou bem conhecido.
O que marcou essa legislatura foi a cassação do prefeito João Carlos Ribeiro. Helvico Queiroz, advogado em Frutal, sobrinho de Alceu, conta a conduta decisiva de seu tio nesta cassação: “No dia da votação, meu tio estava sentado do lado de um vereador que devia apoiar o prefeito. Ele ficou o tempo inteiro conversando com este vereador, para distraí-lo, e não deixar que ele votasse a favor do prefeito. Numa sessão tumultuada, Alceu conversava com o vereador, com a mão sobre a perna dele, não permitindo que levantasse. Na hora que percebeu que ia votar, conversou ainda mais e segurou firme a perna do vereador. Resultado, a votação aconteceu, este vereador não percebeu, e o prefeito foi cassado. Quando perguntei ao tio: _ mas e se ele levantasse? “_ Aí, eu tinha o revólver”, responde. Verdade ou só está contando vantagem? Só ele sabe”.
Cassado o prefeito, assume o vice. O vice era Celso Brito. Não gostava e não gosta do Celso de graça, por causa de partido político. “Não topo de maneira nenhuma. Não sou inimigo, mas politicamente somos água e óleo.”
Depois disso, ficou um bom tempo morando em São Paulo, e voltou. Aproximava-se a eleição de 76. Foi procurado para ser candidato a prefeito. A mulher concordou: tinha que vir pra cidade de qualquer jeito, para estudar os filhos.
O adversário, Osvaldo Batista de Mendonça, o Osvaldo do Cinquenta, era, segundo Alceu, “homem que olhava por cima, membro da maçonaria”. “Foi uma política braba (sic)”. Certo dia, cruza com o concorrente e o ouve dizer: “ _ Vocês acham que eu vou perder pra um homim (sic) desse?” Eleito, conta o episódio para Osvaldo: “você me ajudou a ganhar a eleição porque aí trabalhei mais...”.
O primeiro mandato (1977 a 1983)
O primeiro mandato de Alceu ficou marcado por algumas importantes obras. “E não tinha deputado pra me ajudar”, faz questão de lembrar. Uma das principais foi a construção da nova rodoviária.
A rodoviária antiga ficava no centro, onde hoje é o calçadão. Resolveu transferi-la para o Alto da Boa Vista. Para isso teve que fechar grandes esbarrancados, abrir a avenida Lauriston Souza, construir ponte. Deu uma briga danada. Um dos proprietários da chácara que ficava onde se ergueria a ponte encrencou. Os trabalhadores da prefeitura colocavam estacas e ele ia e arrancava. Foi quando Alceu fez uma proposta “meio boba” para ele. Que proposta foi esta, só Deus sabe. Mas o sujeito não arrancou mais nenhuma estaca.
Havia suspeita de que a escritura era forjada. Alceu falou com o juiz: “_ Já tô com a rodoviária pronta, a rua pronta. Como é que eu faço?”. Segundo Alceu, o juiz deu a seguinte resposta:” _ Numa noite, vai com o maquinário e derrube cercas, mangueiras, pés de laranjas.” Um dia de carnaval, o povo lá dançando e as máquinas derrubando tudo. E a ponte foi feita.
Queria construir o posto de saúde municipal Sandoval Henrique de Sá. No terreno morava um policial aposentado, bravo. Disse que não saia. Alceu avisou que precisava da casa, que era da prefeitura e que “ele ia topar um mais bravo - disse assim, vai que dava certo, Alceu ri - vai é sair mesmo”. Saiu, e recebeu um terreno para construir uma nova casa com os materiais da antiga.
Para a construção da rodoviária, retirou pessoas que moravam na área e deslocou para o que seria a Vila Esperança. Foi muito criticado por isso. O novo bairro não tinha estrutura. Os opositores diziam que estava criando uma Vila dos Pobres.
“Vila dos cachorros, quando queriam me atingir, diziam Vila dos cachorros. Mas este apelido tem explicação. Um camarada de Votuporanga arrumou alguém e invadiu lá, fez um cômodo de laje, piso de cimento, para colocar coisas de matar vaca. Quando o cômodo foi derrubado ficou uma fedentina só. Quando levava gente pra ver onde seriam os terrenos, estava cheio de cachorros atraídos pelo fedor dos restos de vacas”.
Não concorda com as críticas que recebeu por fazer este novo bairro, que segregaria os mais pobres. “A vida anda dessa maneira. Você abre um loteamento, dá de graça (sic), eles vão construindo, vai chegando quem tem um tutuzinho, compra e faz uma casinha melhor. Quem vendeu constrói outro cômodo, compra uns móveis. O dinheiro vai girando. Hoje, lá é uma cidadezinha...”
Segundo mandato (1989 a 1992)
No segundo mandato, fez mais de 300 casas, tapou ainda muito esbarrancado, abriu a avenida JK e construiu uma nova sede para a prefeitura. “Tem muita coisa que se faz e não aparece.
Fiz muita rede de esgoto. Cuidei dos vilarejos, levando água, luz, esgoto, posto de saúde.
Passou ao sucessor 72 veículos. No último mês de seu mandato colocou anúncio no rádio dizendo que quem tivesse algo pra receber da prefeitura que procurasse. Esta era uma marca de seu governo. O empresário Adalberto Queiroz confirma: “O Alceu, na frente da prefeitura, sempre pagou em dia”. “Pagava um dia antes e não depois”, finaliza Alceu.
A eleição de 92 seria histórica em Frutal. Havia uma chapa que prometia mudança, renovação, encabeçada pelo jovem arquiteto Toninho Heitor e o médico Zanto, muito popular.
O mote principal desta campanha era o lema “Nem Celso, nem Alceu”. Alceu diz que esta frase não incomodava, mas a expressão “tô nem aí” dita como “tonin aí”, essa o deixava injuriado.
Mas sabe que é do jogo. Também teve um jingle grudento: “E pra prefeito de Frutal, Alceu Queiroz, Alceu Queiroz, Alceu Queiroz,...”. Um adversário reclamou: “por que não para com essa música? Já tá incomodando.”, e Alceu: “é pra encher o saco mesmo”.
Com seu nome martelado pelos alto-falantes dos carros, a filhinha de um eleitor quis conhecê-lo. Sabendo disso, assim que venceu a eleição, foi conhecer a garotinha. Ela olhou pra cima, ficou caladinha, despediu e foi embora. No outro dia, o pai o encontrou e contou que a menina disse, assim que Alceu saiu: “pai, mas ele é feio, hein!”
Acha que poderia ter feito mais no fim do segundo mandato. “Sinceramente, pensei que meu candidato ia ganhar e queria deixar o caixa organizado para ele. Devia ter feito mais coisas, gastado toda a verba. Deixei pro Toninho e qualquer buraco que ele tapava, colocava: aqui vai o dinheiro do povo. Falando isso, queria dizer então que eu tinha roubado?”
Diz que Toninho já o procurou e reconheceu que errou, que não podia ter feito o que fez. Perdoou? Sim - mas não esqueceu, continua na cabeça. “Quanto mais velho, mais guarda”.
A informalidade para resolver questões sempre foi uma característica do político Alceu Queiroz. Resolvia muitas coisas no papel de pão, no guardanapo, enquanto conversava com alguém em um boteco. Tem a fama de ser rude, pavio curto. Não concorda com ela. Diz que sempre foi sincero. Certo dia, Mauro Menezes, importante líder comunitário já falecido, disse ao Helvico, sobrinho de Alceu: “Gosto do Alceu porque ele não tem palavra”, Helvico ficou sem entender; aquilo era o oposto do que se espera, que as pessoas gostem de quem tem palavra. Mauro explicou: “Faço um pedido para o Alceu. Hoje ele diz que não, de jeito nenhum, que não há hipótese. Amanhã ele já diz sim, que se ajeita.”
Agiu com força uma única vez. “Um vagabundo veio me questionar, já de plano feito, para me tirar do sério e mostrar para a imprensa. Nesse dia, o coloquei pra fora do gabinete, empurrando-o com a cadeira. Mas ele merecia.” Não acha que tem pavio curto. Sempre entendeu os pedidos. Quando alguém o procurava era porque precisava. “Quando é candidato promete tudo. Depois, tem que atender”
Reconhece que teve grandes ajudas nestes seus dois mandatos. Cita o nome de alguns funcionários que foram muito importantes para o seu trabalho: Izídio, Chiquinho Mata, Chico Queiroz. No segundo mandato destaca o trabalho de seu filho, Gilsen Queiroz. “Ele é trabalhador demais. Andava toda a cidade, sabia o que estava acontecendo. E sempre pegou no pesado, não tem moleza com ele, não.”
Família e rotina
Alceu é viúvo da Dona Sebastiana Maria Queiroz. Teve oito filhos, sendo três de um relacionamento anterior. Três filhos já faleceram: Alceuzinho, Elder e Alcimar. São quatorze netos e uma bisneta.
Não concorda que vô gosta mais do neto do que do filho. ”Quero bem meus netos demais da conta, mas gosto mais ainda dos filhos que me deram os netos”. Não fica alisando, comprando balinhas, não é avô babão...
Depois de trabalhar duro a vida toda, a experiência lhe permite o descanso. Alceu gosta de ver tevê, adora assistir novelas. E o futebol? Não é dos programas favoritos, mas ainda assim, assiste. Não gostava muito de futebol, mas de uns tempos pra cá vem gostando. O filho que mora com ele e os netos são Palmeiras, mas “aquele Palmeiras perde demais, não dá pra torcer”. Gosta do Santos, acha o Neymar “engraçadim (sic), um molecão, e joga demais”.
O apreço pela música é bem definido: “gosto de música bonita”. O ritmo sertanejo é o preferido, com Tião Carreiro e Pardinho e Gino e Geno sendo as duplas citadas.
Alceu é um senhor com pouco estudo. Completou o grupo, mas não concluiu o ginásio, como era nomeada a escolaridade da época. Mas a vivência política lhe deu destreza de idéias. Dono de uma risada gostosa e de um gênio decidido, define como deve ser um bom político: “tem que ser humano”.
Mas Alceu não foi sempre um tocador de obras e pouco voltado para o social? Samuel de Souza e Silva, 78 anos, que quase sempre esteve em campo político oposto ao de Alceu, não concorda com este julgamento: “ele tinha noção que seu trabalho ia atingir todas as pessoas. Havia uma preocupação social, já que ele queria que a cidade crescesse”
Alceu diz não ter um ídolo político. Mas, quando dizem que foi o melhor prefeito de Frutal, recusa o elogio e aponta uma admiração: “Dr. Sandoval Henrique de Sá foi o melhor prefeito que Frutal já teve.” Detesta os políticos pára-quedistas. “Eles vem aqui apenas roubar os votos. Não tem compromissos nenhum com a cidade”. Torce para que Narcio e Zé Maia continuem como deputados por muito tempo: “eles mudaram nossa região”.
O legado
A vida de Alceu Queiroz é cheia de histórias, ora engraçadas, ora polêmicas, mas sobre sua passagem pelo gabinete o resumo é feito pelo próprio: “No primeiro mandato, peguei um diamante bruto que não consegui lapidar. No segundo, acredito, a tarefa foi concluída. Hoje não quero mais política, não pra mim, mas o envolvimento é inegável.” Político nato, ainda mexe os seus pauzinhos. Opina sobre questões que envolvam a cidade e, claro, sua opinião vale muito.
Bem, mas você deve estar se perguntando: e a conversa inicial do texto, o que tem a ver? Simples, além de crer em Deus, Alceu foi um homem que acreditou em Frutal, acreditou que a posição da cidade no Triângulo Mineiro e tão próxima ao estado de São Paulo, seria e ainda é, algo que deve ser explorado com grande potencial de desenvolvimento. E quando teve oportunidade de comandar a cidade por duas vezes fez o que julgava necessário para que esse desenvolvimento acontecesse. Impossível deixar passar a observação de que a Frutal de hoje tem muito de Alceu.
A prefeita Ciça reconhece: “Alceu será lembrado como um prefeito dinâmico, empreendedor e comprometido com o desenvolvimento”.
Eleições 2012
Alceu: “vou trabalhar para que o Mauri seja prefeito de Frutal”
Foi começar a entrevista e Alceu já quis falar sobre a eleição. Em sua opinião, o quadro ainda está muito indefinido, “tem muito pré-candidato”.
Instado a opinar sobre alguns destes pré-candidatos não se vez de rogado: “Toninho Heitor já deu o que tinha que dar. O Ésio não serve para Frutal. A candidatura do Lino não é pra se levar a sério. O Romero Brito é boa pessoa, não vejo nada de ruim, acho que até vai ser candidato, mas não a prefeito.”
Alceu já fez sua escolha. E seu candidato é o empresário Mauri Alves, proprietário da Coragro. A chapa dos seus sonhos é Mauri e Romero. A “reunião secreta” citada no corpo da reportagem foi com a prefeita Ciça, justamente para tratar dessa possível dobradinha. O 360 apenas juntou as pontas para chegar a esta conclusão. Após entrevistar Alceu, estivemos com a prefeita Ciça no dia seguinte. Sem saber o que Alceu havia dito, nos informou que havia estado com ele por um longo tempo. Foi só somar 2+2.
Os grupos de Narcio e Ciça estarão juntos nesta eleição, é o que aposta Alceu. E ele acredita que o nome que encabeçará esta chapa será o de Mauri. Mas, afinal, por que esta escolha?
“Vi o Mauri chegando aqui menino, montando a loja ali no Posto do Paulo. Cresceu, está muito bem de vida. É sério, é preparado. Dos pré-candidatos, ele dá de 10 a 1. Não digo de 10 a 0 pra não humilhar.”
Alceu está confiante: “Essa política está fácil. Temos que fazer as coisas com calma. E estou trabalhando nos bastidores como se fosse minha candidatura. Acho que vai dar tudo certo.”
São cinqüenta anos de eleições. É bom prestar atenção no que diz o “velhinho”.
Por Lausamar Humberto
Sou uma criatura de hábitos, de rotinas. A quebra da normalidade sempre me angustia, desconforta. Acomodação, dirão uns. Medo do novo, dirão outros. É um jeito de se levar a vida, direi eu. Nem melhor, nem pior. Meu jeito.
Dentro destas rotinas está o domingo. O meu jeito de viver o domingo. E o meu domingo perfeito certamente será muito diferente do domingo perfeito de quase todos: céu cinzento, frio, chuva fina, fórmula1 de manhã, almoço com amigos, jogo do Flamengo à tarde, Manhattan Connection à noite, e o sono dos justos.
Nesta rotina de domingo há a inescapável visita à feira. A compra de abobrinhas, tomates, frangos caipiras, as pechinchas da hora da xepa, o pastel, a conversa com os amigos, os cumprimentos aos conhecidos. Sempre igual, e sempre muito bom.
E, no meio desta rotina, há a sessão cinema que, na falta de um, torna-se sessão DVD. Muitas vezes, é pipoca sem compromisso, entretenimento puro. Em outras, a profundidade é o prato do dia. Nem sempre os filmes entregam o que prometem, mas quando o fazem é deleite puro.
Foi assim um domingo com Gran Torino. O filme de Clint Eastwood, disponível nas locadoras já há bastante tempo, é uma pequena obra-prima. Pequena porque filme de baixo orçamento, feito em pouco mais de um mês. Só que Clint hoje é um arquiteto da imagem com pleno domínio sobre arte que exerce. Como a idade fez bem ao velho durão de Hollywood. É o grande nome vivo do cinema clássico.
Cinema não é fábula, não precisa ter lição de moral ao seu término. Estes filmes que pretendem passar uma mensagem edificante quase sempre são apenas chatos. Já Gran Torino é cinema de outro calibre e nos dá uma lição de redenção, de tolerância, de modo seco, direto. É um soco bem dado no fígado.
Passei o filme para a turma na qual dei aula de ética jornalística. E o que tem a ver este filme com ética jornalística?, perguntarão os idiotas da objetividade. E quem disse que jornalista tem que ler ou ver apenas temas ligados ao seu mundinho?, digo eu.
Após o término, havia um silêncio respeitoso. Conseguir um silêncio, ainda por cima respeitoso, de uma sala de universitários não é tarefa fácil. Mas as pessoas reconhecem quando estão diante de uma grande obra de arte. Era o caso. As garotas da sala estavam com os olhos vermelhos pelo final impactante. É uma obra de alto calibre. Se ainda não viu, veja.
Lausamar Humberto, jornalista e professor universitário, é editor do 360.
Por Ana Carolina Araújo
Sou docente do ensino superior há seis anos. Esse tempo me deu a certeza de que a educação superior faz a diferença na vida das pessoas e, conseqüentemente, na sociedade de maneira geral.
Digo isso com embasamento. Basta cruzar os dados do último Censo do Ensino Superior, divulgado pelo Ministério da Educação em novembro de 2011 e as notícias do desenvolvimento das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste na última década. O Censo detectou que o percentual de matrículas no ensino superior nas regiões citadas acima aumentou de 2001 a 2010, em contrapartida ao decréscimo da participação das regiões Sudeste e Sul.
Os investimentos governamentais e da iniciativa privada, em especial no Nordeste, têm exigido mão de obra qualificada para atender a demanda de novas indústrias, do setor de serviços (com destaque para o turismo) e da construção civil. Dados do IBGE mostram que entre 1995 e 2007, a participação do Nordeste no PIB (Produto Interno Bruto) nacional aumentou de 12% para 13,1%. Com a economia em plena expansão, até mesmo os fluxos migratórios tradicionais diminuíram no país nos últimos 15 anos. Ainda segundo o IBGE, a corrida para o Sudeste, que marcou as décadas de 1960 a 1980, deixou de existir. O estudo aponta que a principal razão para a migração interna no país é a oferta de emprego. Qualificados, trabalhadores do Nordeste não precisam mais sair de sua região e têm sido um dos motores propulsores do desenvolvimento naquela área.
Toda essa introdução foi para justificar minha surpresa quando qualquer formação superior seja desqualificada. E, então, entro no assunto que me concerne: a formação superior de jornalistas. Adianto que aplaudo a decisão da Câmara de Frutal em aprovar, no final de 2011, a exigência do diploma para jornalistas que queiram atuar como assessores de imprensa na casa. Respeito muito os jornalistas não diplomados que atuam com brilhantismo na profissão. Mas eles são cada vez em menor número. O mercado da comunicação, hoje, se difere muito do cenário de 15 anos atrás. Era fantástico quando um jovem adentrava uma redação e os veteranos tinham tempo (e paciência...) para explicar as minúcias da profissão. Era uma época de redações cheias, quando o mercado se responsabilizava pela boa formação do jornalista. Hoje, simplesmente, não há tempo ou disponibilidade. As redações são enxutas, o tempo de fechamento está mais apertado. O jornalista precisa chegar minimamente qualificado ao mercado para iniciar sua carreira.
E quando digo qualificado, não me atenho às técnicas de apuração e redação da notícia. Refiro-me à experiência de vida que uma universidade proporciona. O Censo do Ensino Superior mostra que calouros de universidades estão se matriculando mais jovens. A média de idade é de 26 anos. E além de muita informação técnica, o que o ensino superior proporciona a esses jovens é a oportunidade de conhecer outras pessoas, com diferentes interesses. É participar de uma cultura universitária que não inclui somente informações específicas da profissão, mas que trará ao indivíduo uma ampliação da visão de mundo, o tempo para a reflexão, a oportunidade para que se formem, além de profissionais qualificados, seres humanos capazes de mudar a realidade em que vivem e que, no mínimo, possam se posicionar de maneira ética e responsável diante dos mais variados conflitos que enfrentarão.
Então, para deixar bem claro, sou a favor da Proposta de Emenda Constitucional que torna obrigatório o diploma de nível superior em jornalismo para o exercício da profissão.
Espero, sinceramente, que seja aprovada em segundo turno no Senado e na Câmara. Não por razões corporativistas. Mas porque acredito, como jornalista e educadora, que profissionais que passam por universidades são seres humanos que podem fazer a diferença.
Ana Carolina Araújo é jornalista e coordenadora do curso de Comunicação Social da UEMG – Campus de Frutal.
Por Lausamar Humberto
Este ano é ano de campanha. E todas as notícias envolvendo corrupção que nos tem rodeado, vide os ministros que têm caído como peças de dominó, trazem à baila a questão da honestidade. E os marqueteiros de plantão já perceberam isso há um bom tempo. Marca clara nas campanhas políticas mais recentes: a valorização da honestidade pessoal do candidato.
Nada mais esperado. As campanhas atuais são comandadas por experientes profissionais do marketing e da propaganda. Se a honestidade é um diferencial importante para o seu produto tenha certeza que ela será estampada na testa do candidato.
Se o candidato é realmente honesto pouco importa. Se for o que os eleitores-consumidores desejam, o coordenador político de plantão não lhes negará este pedido. E tome slogans: “honestidade acima de tudo”, “fulano é o prefeito mais honesto que Brogodó já teve”, “honestidade, capacidade e trabalho” e outras baboseiras mais.
Os marqueteiros se defenderão. Se o candidato possui algumas manchas em sua honestidade, estas manchas devem ser apagadas, pelo menos até a eleição. Agora, se o candidato é imaculado, de reputação ilibada, por que não se aproveitar de uma de suas mais visíveis e admiráveis qualidades?
Os marqueteiros têm razão. Afinal são profissionais pagos, e muito bem pagos, para dourar a pílula da melhor forma possível. Todas estas considerações são feitas por jornalistas chatos, irritados com o baixo salário e sem coisa melhor pra fazer.
Como grande admirador desses profissionais, acredito na candura de todos os candidatos. São honestos, honestíssimos. Mas me pergunto: e daí? Conheço muitas e muitas pessoas que são honestas e que nem por isso saem alardeando esta qualidade aos quatro ventos e nem são candidatas a coisíssima nenhuma.
Este é o ponto. Não devíamos esperar de nossos candidatos uma carta pública atestando sua honestidade. Para postularem um cargo público – de representação, é bom lembrar – ser honesto é o mínimo. Por isso esta deveria ser a primeira pergunta que nos faríamos para definir nosso candidato. Fulano de tal é honesto?
Durante qualquer campanha eleitoral se faça este questionamento. Se a resposta for SIM pode continuar avaliando o candidato. Agora se a resposta for NÃO pare por aí. De nada lhe adiantará saber se o candidato é um bom administrador, um grande empreendedor, um líder regional, uma pessoa ligada ao social. A primeira resposta já deve tê-lo eliminado.
E, se depois desta sua avaliação crítica ninguém tiver passado pela sua peneira, a coisa então estará preta, e tenha certeza que há algo de errado com você ou com os candidatos. E para o bem e a alegria geral da nação, e sem querer ser portador de mau agouro, reze pra que seja com você.
Por Priscila Minani
Salvar vidas. Talvez esse seja o objetivo que torna a Corporação de Bombeiros a instituição mais respeitada pela sociedade. Em suas fardas e com viaturas vermelhas, devem estar sempre prontos para qualquer ocorrência ao toque da sirene.
Incêndios, acidentes, enfartes, captura de animais, afogamentos, desabamentos, inundações... É triste, mas os bombeiros vivem, na maioria das vezes, próximos de tragédias. Viver assim não é fácil.
Todos os dias são colocados à prova da vida e da morte. Pode ser que seja um dia tranquilo, somente cumprindo horário de serviço e fazendo plantão. Mas pode ser que o pelotão seja convocado a lidar com uma situação, por exemplo, de pessoas presas em ferragens em um grave acidente, o que requer muito esforço e concentração. O cotidiano é incerto, mas a vontade de ajudar é o que move esses profissionais.
Tal impressão é percebida quando se pode acompanhar de perto o trabalho deles. Por isso, na manhã do dia 3 de novembro de 2011 a equipe 360 estava a postos no quartel do Corpo de Bombeiros de Frutal. Por volta das 9 horas somos apresentados à estrutura do lugar. O soldado Tiago Fachinelli fala sobre a demanda de Frutal. Por ser uma cidade interiorana, é calma. Enquanto pronunciava essas palavras, a sirene tocou, como que desafiando o soldado. O serviço o chamava.
Explicações interrompidas, pois a agilidade é primordial. O chamado no 193 era pra um caso de suspeita de AVC, o popular derrame. Poucos segundos de movimentação e estavam todos prontos para o socorro. Fomos autorizados a acompanhar a ação, desde que num carro particular. Assim o fizemos. No caminho, uma verdadeira perseguição à viatura, afinal tratava-se de uma emergência. Chegando ao local as ações são rápidas e logo a vítima é levada ao hospital. Frei Gabriel ou São José? O destino é definido de acordo com a propriedade ou não de plano de saúde. Enquanto acompanhávamos o trabalho dos bombeiros, um senhor, conhecido da família, estava no local e antes que eu perguntasse, já deu seu depoimento: “Acho o Corpo de Bombeiros melhor para Frutal do que a ambulância, porque eles são estudados para isso e são muito atenciosos e cuidadosos”, declarou Jades Reis da Silveira. Prova espontânea de admiração e reconhecimento.
A vida do quartel
Já que é para cumprir horário em prontidão, ou seja, 24 horas de serviço por 48 horas de descanso, que seja num lugar confortável. O quartel frutalense possui boas instalações. A estrutura, além de compreender o espaço destinado ao trabalho, ainda possui área para a prática de atividades físicas, como campo de futebol, quadra e piscina. O alojamento e a cozinha dão um ar caseiro ao lugar que acaba se tornando o lar dos profissionais no plantão.
Oito horas da manhã. Inicia-se a jornada. Passos calmos de quem ainda está sonolento, levam os bombeiros à sala de serviço. Um bom dia aqui, outro ali e as conversas fiadas com os colegas de trabalho a qualquer momento podem ser interrompidas. Se o telefone toca, a indicação da ocorrência é dada por um dispositivo com quatro cores de lâmpadas posicionado na parede frontal do quartel. Se a vermelha acender é sinal de que será um resgate; a verde indica salvamento; e a amarela e a azul representam os casos de socorro. Independente da cor, o caso é o mesmo: o papo muda e a seriedade e compromisso com o profissionalismo são as vozes da vez.
No caminho, o carro vermelho com o soar da sirene deixa olhares preocupados por onde passa, pois se está apressado é sinal de que alguém corre risco e qualquer minuto pode fazer toda a diferença na vida de uma pessoa. Assim que a correria passa, o retorno ao quartel é tranquilo. No período entre as ocorrências, o clima é de descontração, até porque todos precisam recuperar as energias diante das situações do expediente.
São cerca de 30 bombeiros que formam o efetivo de Frutal. Comandados pelo Sargento Leopoldino, eles têm à sua disposição viaturas e um barco para salvamento. Em média, são sete no plantão diário, que se dividem nos trabalhos. Quando não é possível que estejam todos, o serviço se torna mais complicado, porém não deixa de ser bem feito.
As cidades de Itapagipe, Limeira d’Oeste, Iturama e São Francisco de Sales estão entre as que são cobertas pelo comando de Frutal. Trata-se de uma região muito grande para um efetivo muito pequeno. Outra dificuldade é a falta de referências por parte da sinalização e das pessoas que requerem o serviço. O tempo perdido nessa situação pode mudar os rumos da vida de uma pessoa. Isso ainda deve ser melhorado para que a prestação de serviços possa ser cada vez mais eficaz.
A escolha
Apesar de ser corriqueira a maioria dos atendimentos, a pressão é constante. Aliás, tem que ser dessa forma. Pois, mais hora, menos hora, pode ser que a monotonia seja quebrada e o psicológico deve estar preparado. Por isso, desde o curso de formação, o emocional e a pressão são trabalhados a todo instante.
A tarefa mais difícil nem é a do socorro, mas a de voltar ao quartel como se não tivesse saído, lidando com o sofrimento de forma natural. Não é frieza emocional, é necessidade profissional.
É assim que Tiago Fachinelli tem vivido. Há três anos na corporação, diz gostar cada vez mais do que faz. Sempre gostou de correr riscos e essa profissão lhe agrada. Por fim, a repórter pergunta: “já pensou em desistir?”. A resposta: “Nunca. Na época do curso de formação vivemos o extremo para saber se é isso que queremos, e eu tenho certeza”.
Por Rafael Del Giudice Noronha
Digam o que quiser. Do menos fanático, do menos habilidoso até o mais apaixonado torcedor de futebol, todo garoto já chutou uma bola. E um dia, ou esse garoto ou alguém à sua volta já disse: “vai ser jogador de futebol”. E quem não sonhou?
Quem assiste ao clipe da música “É uma partida de futebol”, do Skank, ouve: “o futebol é um ramo da arte. Arte popular.” A seguir, um belo solo de guitarra e, sem dúvida, um dos melhores resumos sobre o que é um jogo. Definições simples, que deixam claro a função de cada jogador no campo. A parte menos feliz do clipe é, para este paulista que vos escreve, mostrar uma partida entre Cruzeiro e Atlético Mineiro, mas isso, é detalhe, mero detalhe de regionalismo.
E todo garoto se identifica com ela. Que moleque, com seis, sete ou até vinte anos já não sonhou entrar num estádio lotado para fazer aquilo que mais gosta: jogar futebol. São raras as exceções, assim como são raros os que conseguem realizar este sonho.
Geralmente, a história é esta: um garoto simples, que joga o seu futebol no campinho de terra, ainda sem nenhum calçado. Alguém passa por ali, o observa. E gosta! E o leva para testes, para treinos, até que dá certo. Um novo Pelé? Um novo Garrincha? Bem, são suposições injustas. Jamais haverá outro jogador como Pelé, como Garrincha, ou até mesmo um Felipe Melo. O novo aspirante a astro do mundo da bola é único. Pode ser habilidoso ou cabeçudo, como muitos definem o nosso volantão da última copa, mas cada jogador tem a sua característica. Arquétipos – a mini-história do começo do parágrafo – existem apenas na teoria, exceto para Jung, nome famoso da psicologia analítica.
Pois bem, além do dinheiro e da fama – alcançados por uma minoria – por que ser jogador de futebol? Por que passar tanto tempo longe de casa, para depois, os amadores, entrar nestes micros coliseus contemporâneos que são os campos da várzea na esperança de ser visto e sair do anonimato, se tornar minoria, exceção? É impossível explicar paixão, esperança e prazer.
Mas, se é pequena a parcela de pessoas que vivem esse sonho, até que isso se torne realidade, a possibilidade sempre existe. E existe em qualquer lugar do mundo. Seja em Marselha, França, onde nasceu Zidane. Seja em Ypacaraí, Paraguai, terra de um dos melhores zagueiros da Copa de 1998, Gamarra. Seja em Paulista, interior do Pernambuco, terra de Rivaldo, o grande jogador brasileiro, ao lado de Ronaldo, na Copa de 2002. Em qualquer lugar do mundo, existem talentos, existem pequenos diamantes, pedras brutas à espera da lapidação.
Alisson Ribeiro, o beque de Fronteira
O leitor provavelmente ainda não ouviu falar de Alisson. Nascido no dia 10 de fevereiro de 1994, na cidade de Fronteira, o jovem atua hoje como zagueiro do time sub-18 do Internacional Sport Club.
Diferente da pequena história sobre surgimento de jogadores, descrita acima, Alisson não foi visto em um campinho de terra. E para os argumentadores de plantão, isto não é uma contradição. Serve para mostrar que cada história é uma história e reforçar a idéia: os arquétipos são, na maioria das vezes, pura teoria.
Voltando à história do beque de Fronteira. Há quatro anos, Alisson começava a dar os primeiros passos no caminho para o Rio Grande do Sul. Treinava na escolinha municipal de sua cidade, até que, dois anos depois (2009), surgiu a oportunidade de jogar um campeonato regional, em São José do Rio Preto. Fronteira participou e o zagueiro despertou o interesse do nosso outro personagem, Afranio Vieira Junior, frutalense, professor de educação física e então técnico do América de Rio Preto.
Interessado no futebol do atleta, Afranio o convidou para uma semana de treinamentos em Rio Preto. A semana foi de trabalho intenso, com saldo positivo. Alisson permaneceu na cidade paulista até meados de 2010, obteve bons resultados. Teve altos e baixos como todo atleta, mas nunca desistiu. “O Alisson é focado, sério, já passou por fases difíceis e sempre buscou melhorar. É muito maduro, característica importante para não ficar deslumbrado com o mundo do futebol e alcançar seus objetivos.”, diz Afranio.
Rio Grande do Sul, o beque está fora de casa
Em março de 2010, Alisson viu a oportunidade de mudar a vida. Um DVD com lances do atleta e um jogo completo foi levado para dirigentes do Internacional. Novamente o garoto foi convidado para ficar uma semana treinando sob a análise de profissionais que buscam transformar a pedra bruta. O resultado? Aprovado.
Mais um mês e o contrato com o Internacional seria assinado. Alisson conta como foram os dias que ficou na capital gaúcha antes da assinatura: “O começo é bem difícil. Até assinar o contrato é assim. Mas hoje o clube oferece toda a estrutura necessária para o nosso melhor desenvolvimento.”
O zagueiro, que começou em Fronteira, numa escolinha simples, é hoje atleta da Agência N2Sports, já foi campeão gaúcho – em cima do Grêmio –, 3º colocado em campeonatos nacionais e coleciona títulos de torneios regionais.
Apesar deste mundo de títulos, contratos, boa estrutura, ninguém substitui a família e isso ficou claro, ao ouvir as palavras de Alisson pelo telefone “A saudade de casa é complicado. Eu saí com 14 anos e minha adolescência foi trabalhar, mas o que aperta mesmo é a saudade.”
Talentos por todos os lados
Além de Alisson, Afranio conta que existem outros jogadores da região que estão em grandes clubes. Na cidade de Frutal mesmo, o garoto Gustavo, que começou em 2006 na Escolinha Gol de Placa, hoje é capitão da equipe Sub-15 do Noroeste de Bauru.
Fica, portanto, provado por A + B, que talentos existem por todos os lados, mas só talento não basta. “A formação da família é importante. O Alisson, por exemplo, já trabalhava quando começou a jogar bola e os pais sempre estiveram ao lado dele. Tenho certeza que se ele não conseguir ser um jogador profissional, será uma excelente pessoa. A família sempre o ajudou.”, analisa Afranio.
O incentivo ao esporte é outro fator de grande relevância. Por mais que exista uma lei, com este nome, é difícil trabalhar na formação de jovens atletas. Afranio trabalha como professor, mas poderia estar na busca de garotos que formassem uma equipe e representassem a cidade. “Voltei para Frutal e ninguém me procurou para desenvolver um projeto com crianças e descobrir novos talentos, aí fica difícil mexer com futebol.”, conclui.
É possível transformar sonhos em realidades, mas, primeiro, é necessário transformar aspirações em realizações. Apoiar, incentivar o esporte. Se virão atletas bons ou ruins, é secundário. A formação como cidadão vai além. Sonhar não faz mal algum, pelo contrário.
Por Mariana Nogueira
A repórter que aqui vos escreve esconde um entusiasmo: a gastronomia. Não só pela formação acadêmica na área, mas por ter passado a vida em torno de fogões, com mãe e avó cozinheiras de mão cheia. Assim como os sabores caseiros, as novidades são bem-vindas. É preciso comer de tudo, já dizia a minha mãe. E foi seguindo seu sábio conselho que em minha última viagem relâmpago, deixei a praia de lado e fiz um tour gastronômico pelo Mercado Público Municipal de Florianópolis, provando sabores e aromas.
As admiráveis praias do sul brasileiro encantam por suas águas claras de areia branca. Floripa não fica atrás. A ilha tem cerca de cem praias, entre essas estão: Brava, Canasvieiras, Ingleses, Jurerê, Santinho, Praia do Forte, Joaquina, Mole, Armação, Morro das Pedras e Açores. Na chegada à ilha da magia, fica praticamente impossível não se envolver pela beleza da Ponte Hercílio Luz, um cartão-postal de botar inveja em qualquer maravilha do mundo moderno. Durante a noite, a beleza arquitetônica da ponte se evidencia com as luzes reluzindo seu reflexo no mar.
Turismo Gastronômico
A ilha de Santa Catarina tem como base gastronômica os peixes e frutos do mar, apesar de contar com casas típicas italianas, japonesas, entre outras. No Mercado Público são encontrados os pescados mais bonitos da cidade. São diversos boxes com peixes frescos, crustáceos e moluscos. Há também uma imensa variedade de grãos, verduras, legumes, frutas, peças de carne defumada e artesanatos. O espaço construído em 1899 contava com apenas uma ala de espaços para vendas, a outra ala e um vão ligando as duas partes do mercado foram feitos em 1915.
Hoje, o mercado abriga 140 boxes com mercadorias diversificadas e bares. Entre os bares internos, o Box 32. Fundado em 1984, o local é conhecido como o balcão mais democrático do Brasil, pois nele se sentam pessoas de todas as classes sociais. No cardápio, que, diga-se de passagem, existe disponível em sete idiomas, mais do que se espera de um bar de mercadão, pratos recheados de peixes, camarões, outros frutos do mar e as cachaças 32. O pastel de camarão com 100 gramas de recheio e as ostras frescas são, segundo o garçom Marcelo, os pratos mais pedidos. As apetitosas pernas de rãs fritas e empanadas não passam despercebidas. Suculentas e exóticas, aguçam a curiosidade e matam a fome dos freqüentadores.
Entre uma ala e outra do mercado, um vão a céu aberto, e outros bares e restaurantes. Com música ao vivo, andarilhos, vendedores ambulantes e pombos, o lugar é preenchido de mesas e pessoas. O ambiente pitoresco e descontraído faz jus a um Mercado Municipal centenário. O chopp na caneca de 500 mililitros faz-se presente em praticamente todas as mesas, o calor e os petiscos servidos servem de ajuste perfeito para acompanhar a bebida.
Entre as especiarias é possível provar o Congrio, peixe de carne branca macia e com poucos espinhos, grelhado, acompanhando de pirão, arroz branco, salada e molho de camarão pela bagatela de R$50. O preço amigo chamou à atenção já que, na noite anterior, em um famoso restaurante italiano de Florianópolis, o mesmo pescado, em porção menor, acompanhado de talharim, bolinhos de purê de batata e brócolis não saiu por menos de R$150. Iscas empanadas de peixe acompanhado de caipirinha de limão com cachaça espantam o cansaço do passeio, a fome da tarde e o calor de um sábado de primavera.
Aos sábados, dia em que estive no local, o Mercado Municipal fecha às 12h. Já os bares que estendem as mesas na rua, fecham às 15h. Aos domingos nada funciona. Curioso é que, de acordo com alguns comerciantes, as praias ficam lotadas aos sábados e domingos não apenas pelos turistas, mas pelos próprios florianopolitanos, que aproveitam para aproveitar as belezas da terra natal, algo diferente do que se vê em muitas cidades litorâneas.
Turismo cultural
É preciso pés em sapatos confortáveis, roupas leves, sacolas ecológicas para guardar as compras e muita disposição para caminhar entre as subidas e descidas do centro histórico de Florianópolis. As ladeiras forradas de paralelepípedos, ladrilhos e calçadas de pedras portuguesas cansam até os mais atletas.
A Alfândega, vizinha do Mercado Público Municipal, abriga na sua frente uma feira livre onde é possível comprar artesanatos, discos de vinis, caricaturas, pinturas, livros antigos e até um pão com linguiça. Existe também um aglomerado de barracas que vendem queijos, panelas de barro, artesanatos de renda, carnes defumadas, lingüiças, salames e outros embutidos. O Largo da Alfândega é ponto de encontro de artistas que se apresentam no palco do chafariz e turistas que buscam um passeio cultural.
O calçadão histórico-comercial da Rua Felipe Schmidt não perde em beleza. No local, além do comércio das lojas e galerias, vêem-se vendedores ambulantes aos bocados. No chão de pedras portuguesas eles estendem sua mercadoria, cena semelhante à da Rua 25 de Março em São Paulo. Ainda nesse endereço, a Igreja de São Francisco, inaugurada em 1815 ,preserva os traços originais do período colonial. Na entrada, vários pedintes esperando doação, fato comum, já que pertence à Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, que protege os desafortunados.
O conjunto I – Centro Histórico, Área Central de Florianópolis – também inclui o Museu Histórico de Santa Catarina. O Palácio Cruz e Sousa foi construído para ser Casa do Governo. Nele se abrigaram governadores no Brasil Colônia, presidentes da província no Brasil Império e chefes do poder executivo estadual no Brasil República. Após anos como sede do poder executivo, o palácio se transformou em museu fazendo parte das obras sócio-culturais do centro da cidade.
Florianópolis não é a ilha da magia por acaso. Mas também não é apenas de resorts e jurerês que ela é mundialmente conhecida. A ilha é um importante centro histórico brasileiro. Há na cidade uma ponta da vasta história do nosso país em cada esquina. Prédios com traços coloniais, os artesanatos à venda, o jeito de vender o pescado e a educação dos habitantes. Cada segundo em Floripa compensa.
Por Thaís Fernandes
Foram 180 mil pessoas nos três dias de Festival. O SWU (Começa com Você) reuniu música e artes com o intuito de disseminar trabalhos e discussões sustentáveis. Os cabelos denunciavam a diversidade: dreads aos montes, moicanos, chapinhas, black powers. A grande maioria viajou muitas horas até chegar ao evento, mas a verdade é que a viagem ao lado de amigos ou mesmo de desconhecidos com algum gosto em comum, já é grande parte da aventura.
Em três dias, artistas nacionais e internacionais se dividiram nos mais diferentes estilos. Do reggae para o eletro, até o legítimo rock’n roll. Com 1,7 milhão de metros quadrados o Festival abrigava além dos palcos musicais, diversas intervenções artísticas e, ainda o II Fórum Global de Sustentabilidade. As palestras e debates ocorreram durante as manhãs e as tardes de todos os dias. Para quem já tivesse o ingresso bastava se inscrever e participar de graça. O Fórum contou com convidados de peso como o músico e pacifista Neil Young e a diretora de cinema Laís Bodanzky (Bicho de sete cabeças e As melhores coisas do mundo).
A abertura do Festival contou com muito rap e reggae. E quem escolheu o primeiro dia não se arrepende. Marina Toniollo Reis, 20, estudante de Comunicação Social na UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais), planejava desde junho deste ano a viagem ao Festival. “Quando meus amigos me falaram e fiquei interessada, combinamos de ir todos juntos”. A turma que decidiu viajar quase 12 horas até o SWU era formada por seis estudantes da UEMG, Campus de Frutal.
A falta de opções locais fez os amigos suarem pra conseguir um meio de transporte. “Foi dificílimo encontrar transporte. De tanto eu ir atrás, lembrei de uma excursão que fizemos para o programa Altas horas e o guia Claudinei me passou o cartão dele, entrei em contato. Como ele é de Rio Preto, me informou sobre uma excursão de uma agência de lá. Todo mundo concordou e fomos com eles. O único problema era que a excursão saia de Rio Preto, mas nós demos um jeito... fomos de táxi, hehehe... e no final deu tudo certo.”, brinca Marina.
Mas todo o esforço foi recompensado com a chegada ao local do evento. “Valeu a pena sim, cada minuto de ansiedade e de insônia.”, afirma Thiago Couto, 21, um dos seis estudantes que saíram de Frutal rumo ao primeiro dia de Festival SWU. Marina lembra ainda o que passava por sua cabeça antes da chegada: “Expectativas foram muitas. Queria muito participar de um festival mundialmente conhecido e com tantas atrações. Primeira sensação? Olha aonde eu tô! Foi demais, é enorme! Olha a estrutura desse lugar.”, impressiona-se.
O show mais falado do dia 12 certamente foi o do Black Eyed Peas. Thiago ressalta o carisma do grupo americano. “Curti sons até mesmo antes desconhecidos. A energia, a “vibe” te faz curtir! Surpreendi-me com o show do Marcelo D2 e do BEP! Sensacional é pouco”, enfatiza Couto.
Os shows internacionais foram os mais esperados e surpreendentes para os amigos. “Snoop Dog foi demais, foi um show muito bom. Meus amigos todos comentaram que adoraram o show. E negativamente foi o Kayne West, chato até!”, relembra Marina.
É claro que em meio a tantas opções, foi preciso definir bem o que cada um queria fazer. Por isso a primeira parada foi por um dos ambientes de intervenção artística, para depois seguirem para a Tenda Heineken, onde estavam os Dj’s. “Devido ao enorme espaço e aos shows simultâneos não tive a oportunidade de fazer tudo, porém fiz tudo o que eu dei prioridade.”, afirma Couto.
O estudante, que cursa o 4º período de Administração, esteve seu primeiro grande Festival e conta que já guarda grandes lembranças. “A sensação é única, não me sentia no Brasil. Eu me sentia como em um festival na Inglaterra ou qualquer outro festival internacional fora do nosso país, que para eles já é freqüente. Grandes artistas nacionais e internacionais fizeram com que eu não desistisse ou deixasse essa oportunidade passar.”, ressalta Thiago.
“Apesar de ficar super cansada, não conseguir dormir no ônibus e ficar 48 horas acordada, valeu a pena. Quero essa aventura de novo!”, diz Marina que relembra ainda que a companhia dos amigos foi essencial para tornar a experiência inesquecível: A viagem foi maravilhosa. Só risadas, vale a pena, quero repetir!.
Em meio a 73 atrações musicais, os interessados tiveram que escolher bem em qual dia comparecer. E a preferência frutalense ficou mesmo com o último de dia de Festival. O dia 14 de novembro reuniu bandas que tem em comum o rock e os fãs devotos, incluindo um ônibus lotado de frutalenses. Kaio Cesar, 23, estava de olho no Festival desde sua primeira edição no ano passado: “Não poderia perder a segunda. A expectativa era de um festival alternativo, com muito rock e sem violência.”
Na sua lista de preferências, Kaio destaca as bandas Alice in Chains e Stone Temple Pilots. Mas como todo grande evento, este também proporcionou surpresas. “A banda Down eu praticamente não conhecia e foi espetacular. Já a Primus foi uma merda e todo mundo falava que era uma banda fodida.”
O jovem, que já esteve em outros festivais, destaca a estrutura e a qualidade das bandas no SWU: Com certeza foi o maior festival que já fui. Os diferenciais foram as bandas dos anos 90, com certeza.
Além disso, ele não se abala com a idéia de viagem cansativa de bate-volta. “Pra quem mora em Frutal, se quiser ir a show grande tem que enfrentar viagem longa, então eu sempre encarei essas viagens de cinco ou mais horas. E é sempre bom, porque a viagem também faz parte da diversão. É praticamente um evento a parte.”, confirma Kaio.
Sobre a experiência de um grande Festival os três aventureiros são unânimes: Sim, eles pretendem repetir a dose. “Com certeza, se o line up do SWU 2012 estiver legal como em 2011 eu irei. E estou planejando de ir ao Lollapalooza em 2012... vamos ver.” comenta Kaio Cezar. Marina também tem planos para o Festival Lollapalooza que ocorrerá em São Paulo, em abril do ano que vem. “Umas das minhas bandas favoritas vai tocar, o Foo Fighters! Eu to morrendo de vontade de ir. Se eu tiver grana eu vou!”, explica. E Thiago completa: “As economias de universitário que sou, já estão sendo feitas!”.
Por Mariana Nogueira
Com o nascimento do campus da Universidade do Estado de Minas Gerais em Frutal, a cidade ganhou não só em educação, mas também em desenvolvimento. Em 2004, ano do primeiro vestibular da UEMG, Frutal acolheu alguns novos moradores que cursariam Administração. A partir daí, o número crescente de universitários acompanhou o desenvolvimento do campus, que a cada ano criava novos cursos.
Atualmente, 1300 alunos freqüentam os sete cursos oferecidos pela instituição. Estudantes que adotaram Frutal como lugar pra viver. A questão é: como vivem esses universitários? Onde moram? Como se alimentam?
Uma boa parcela mora sozinha ou divide a casa com mais um estudante. Outros, optaram pela comodidade das pensões. Há ainda os que residem nas cidades vizinhas e vem todos os dias para Frutal de ônibus.
Mas são as repúblicas que estão se disseminando pela cidade, tornando Frutal uma cidade caracteristicamente universitária. Já é em torno de vinte o número de repúblicas instaladas atualmente na cidade, com uma média de cinco moradores. São repúblicas femininas, masculinas e uma mista.
Como grandes famílias
República tem perfil. Umas são mais unidas, outras mais independentes, mas todas vivem em sintonia. Pessoas que antes da faculdade não se conheciam, hoje vivem como uma grande família. Assim como o nome diz, república é uma coisa pública, neste caso, todos são líderes opinando e contribuindo para o bom andamento da casa.
“É como se fossemos irmãos, uma família” define Samuel Rocha, integrante da Vira-Lata, república masculina mais conhecida da cidade. Na casa moram além de Samuel, que é de Franca, Warley Damásio, de João Monlevade, Alex Santana, de Cajobi, Hugo Zaqueo, de José Bonifácio, Thiago Madlum e Felipe Soares, ambos de São José do Rio Preto.
Já as conterrâneas de Minas Gerais, Giovanna Mesquita, de Teófilo Otoni, Monique Calasãs, de Uberaba, Samira Baltazar, de Viçosa e Juliana Cavalcanti, de Conselheiro Lafaiete integram a Rep. De Minas, que é pouco popular, mas que não perde em espírito de república para nenhuma outra. “É uma questão de sorte a república, das pessoas com quem você vai morar”, diz Monique.
Bigorna é o nome da única república mista existente em Frutal. São duas meninas, Jôicy Franco Silva, de Indiaporã e Samara Fagundes da Silva, de Araxá, e um menino, Ramires Félix de Lima, de José Bonifácio, dividindo o mesmo teto, teto sustentado por uma grande amizade. “A ideia da república mista veio porque já tínhamos grande amizade, e nenhum de nós estávamos contentes com os lugares que morávamos” conta Jôicy.
A caçulinha das repúblicas frutalenses é a Rep. Kalymama, com três moradores e quatro meses de existência. A Kalymama surgiu quando Rodolfo Gorjon, de Bebedouro, José Humberto Carvalho Freitas e Eduardo Figueiredo Queiroz, ambos de Iturama, se juntaram. Eles saíram do condomínio onde moravam e buscaram um ambiente só deles. “As mudanças foram em relação ao espaço e a liberdade. Acho que isso já é bastante coisa, se for pensar”, enfatiza Rodolfo.
Seis mulheres e um cachorro. Assim é composta a Rep. Tcheca. Aline Roldão, de Itapagipe, Allana Magno e Jéssica Rodrigues, de Rio Preto, Larissa Dardani, de Santa Adélia, Natália Coquemala, de Nhandeara, Taciane Borges, de Passos e Tcheco, frutalense, o poodle que é o xodó das tchecas, apelido dado às meninas da casa.
Ao contrário do que muitos pensam, salvo algumas exceções, as repúblicas são organizadas, limpas e harmoniosas. Cada qual com suas peculiaridades e regras a serem seguidas.
A independente Tcheca
Amontoadas em um sofá de 3 lugares, cinco das seis integrantes da República Tcheca abriram as portas da casa para provar que “a Tcheca é uma casa de família”, como definiu Natália. A casa é ampla e cada uma tem seu quarto, seu espaço. Por um desses acasos do destino, as seis estavam à procura de um novo lugar pra morar quando se encontraram e fundaram a moradia. Seis mulheres (ainda sem o cachorro)? Tinha tudo para dar errado. Mas deu certo.
“Eu, sinceramente pensei que nunca fosse dar certo”, diz Aline, enquanto Taciane destaca um dos pontos positivos da casa, “às vezes você tá precisando de alguém, pode ter três fora, mas sempre vai ter uma das meninas aqui pra te ajudar”.
Todas são categóricas quando o assunto é o motivo principal para morar em república: o orçamento. Dividir as despesas de aluguel, água, energia elétrica, internet, etc., é muito melhor do que pagar todas essas contas sozinhas. Já a alimentação é uma despesa individual, cada uma é responsável pela sua alimentação. “A gente não tem que ficar preocupando com o que a outra vai comer” ressalta Jéssica. O fator pais também foi decisivo. Saber que as filhas terão com quem contar caso precisem de alguma coisa tranqüiliza os pais e mães das meninas.
Na Tcheca, pode tudo, menos o barulho excessivo. Desde que, todas saibam e concordem. Pode festa, churrascos, aniversários e reuniões de amigos. Na limpeza, cada integrante é responsável pelo seu quarto e os ambientes comuns são de todas. Se uma decide começar a limpar e a outra vê, logo todas estão limpando a casa juntas.
O fofo Tcheco é uma grande companhia. Segundo as meninas, tem dias que nenhuma delas quer brincar com ele, então ele faz bagunça, as necessidades na sala, rasga o lixo e leva frutinhas pra dentro de casa. Pronto: atenção conseguida. “Ele é encapetado” assume Allana.
O cão agitado segue as meninas o tempo todo, aonde uma vai ele vai atrás. “Esses dias eu fiquei sozinha, aí eu olhava pra ele, ele olhava pra mim. Eu e você, você e eu” conta Natália. “Quando ele tá limpinho é bem mais fácil das meninas darem moral pra ele” brinca Taciane. Mas mesmo com o banho atrasado o filhote embeleza e levanta o astral do ambiente.
Três em um
Eles já moravam juntos no condomínio Kalymam e dois já eram amigos antes da faculdade. Eis que surge a irmandade Kalymama. Um por todos e todos por um. O que é de um é de todos (com ressalvas, claro). “A gente vai ao mercado e não tem o meu requeijão e o requeijão dele, a gente compra tudo junto e come tudo junto”, explica Rodolfo. O método tem dado certo desde o começo da vida em república, em meados de agosto.
Tratando-se de três meninos que nunca precisaram fazer as atividades domésticas na casa dos pais, a organização da casa fica por conta da empregada. Cada um cuida das suas coisas da maneira que sabe, mas a cada quinze dias a casa passa por uma visita da faxineira que coloca tudo em seu devido lugar.
Um avisar o outro que vai sair é rotina. Eles sempre procuram deixar os outros a par do que está acontecendo em sua vida. Chamam pra sair juntos, pra ir a festas ou até mesmo pra ir até a padaria. “Aqui a gente chama um ao outro pra tudo pra ir pra qualquer lugar. A gente procura dar explicações”, diz Eduardo.
Por enquanto o trio vai continuar mantendo sua formação original, mesmo com a chegada dos calouros no ano que vem. De acordo com eles, as despesas são ideais e eles conseguem passar um mês bem, não há motivo para colocar outra pessoa apenas para diminuir os gastos. Um novo morador poderia influenciar o bom andamento da casa. “No começo do mês pagamos as contas e o dinheiro que sobra a gente faz a compra no supermercado. A casa fica cheia de comida.
Duas semanas depois, as coisas vão acabando e a gente termina o mês a pão e macarrão instantâneo”, diverte-se Rodolfo.
Apesar do pouco período de república eles assumem que sentem falta da casa quando estão em suas cidades natais. Um pouco se deve pela independência que têm quando estão em Frutal.
Aqui eles tem seus horários e rotinas próprios, além de poderem passar a tarde jogando vídeo-game juntos, por exemplo. Na Kalymama, sinceridade é tudo. Deixar tudo em pratos limpos é essencial para os três. Apenas as pequenas coisas são deixadas de lado. “Têm coisas que não precisam virar discussão, você deixa passar”, conta Eduardo.
Eles gostam da vida que levam e da forma como vivem. Deste período universitário vão levar coisas positivas para a vida toda, a amizade, tolerância e o respeito às diferenças. “O que vai ficar pra sempre é a convivência com as pessoas”, conclui José Humberto.
LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN
Uma escada estreita e alta leva à arrumadíssima República de Minas. A casa já passou por diversas formações, foi até república mista. A escolha do nome surgiu porque todas as integrantes são mineiras e são meninas (ou minas, na gíria dos garotos). A formação atual? Quatro mulheres, um cachorro e um peixe.
Com três quartos e uma suíte, as meninas compartilham despesas e serviços domésticos. Na parede da cozinha há uma listinha dos afazeres do mês, e o sábado é dia oficial da faxina na Minas, “Cada uma é responsável pelo seu quarto e a gente divide o resto da casa” diz Giovanna. Há também a lista do lixo. Cada dia da semana uma é a encarregada de por o lixo para fora. A compra do mês é dividida entre as quatro e cada uma faz o que pode. Monique é a cozinheira oficial, ela faz todos os dias o almoço com a ajuda de Samira, já Giovanna e Juliana ficam responsáveis pela limpeza da louça.
O clima harmonioso é explícito. Uma discussão ou outra tem, mas no fim tudo volta à calmaria. Elas dão ao fato de terem se conhecido na república o mérito da boa rima da casa. “Amiga acha que tem o direito de entrar totalmente na sua vida” define Samira. E a saudade uma da outra existe nos períodos de férias. Para não perder o costume, elas mantêm sempre o contato.
São muitas preocupações na vida de um estudante: contas, estudos e relacionamentos. “Dia 10 é dia de pagar o aluguel e você não tá nem aí, o seu pai paga. Aqui é diferente”, é assim que Giovanna explica o resultado da responsabilidade que adquiriu quando passou a morar em república. Quando vão para a casa dos pais, são mais tolerantes, principalmente porque entendem como é que se trabalha a estrutura de um lar sem que um invada o espaço do outro.
Mesmo unidas, cada uma tem sua rotina diária e aos finais de semana e feriados, elas procuram sempre fazer as refeições juntas. “O companheirismo é muito. São poucas as repúblicas, creio eu, que vivem tão bem quanto nós, nunca tivemos nenhum problema, vivemos super bem” conclui Monique.
Meninos de pedigree
Que vira-lata que nada. Os seis integrantes da República Vira-Lata passam bem longe disso. São seis homens de família. A república existe há dois anos e sempre está de portas abertas para os amigos, por isso é uma das mais populares de Frutal, senão a mais. “Talvez a república é a mais conhecida porque fazemos mais festas que as outras” diz Samuel. “Às vezes, a gente acha ruim por ser tão conhecida, as pessoas param e já entram” explica Warley, defendendo a privacidade da casa.
Eles decidiram morar em república tanto pelas despesas quanto pela companhia. Ter alguém pra dividir os problemas e situações corriqueiras do dia-a-dia, vale muito para os meninos. Na área doméstica é Diná quem manda. A empregada estabelece a ordem na casa, e eles mantêm. Sujou, lavou. Assim funciona a organização interna da Vira-Lata. As refeições, em sua maioria, são feitas em restaurantes.
“A gente foi cortando o que dava problema. Por exemplo, limpeza, dividir o serviço dava problema, então vamos contratar alguém”, conta Samuel. Brigar? Nunca. De forma adulta eles procuram resolver os problemas da casa, e uma única vez foi preciso fazer uma reunião para tomar as decisões em conjunto.
O clima família também é transparente entre eles, um sempre avisa ao outro o que vai fazer. Tiago, Warley e Hugo estudam na mesma classe, e de acordo com Tiago sempre que Warley ou Hugo não acordam para ir à aula, ele bate na porta do quarto e pergunta se eles vão ou não para a faculdade. “Rola certa preocupação, claro”, diz.
Cada um tem seu quarto, e o que colaboraria para uma casa desprendida torna-os unidos, porém independentes. Cada qual com seus compromissos, mas sempre procurando o outro para saber se está tudo bem, se quer almoçar junto.
Os meninos da Vira-Lata são amigos da vizinhança toda. “As vizinhas contam com a gente como contam com qualquer outro vizinho”, fala Samuel. De bagunçada a casa não tem nada. Há sim, uma baderna ou outra dentro dos quartos, mas as áreas comuns da casa estão sempre em perfeita organização, “As pessoas sempre acham que república é bagunça. Acham que vai entrar na república e vai ver cueca jogada, comida. Que é festa 24 horas por dia, que ninguém pensa em estudar. Como se quem vivesse em república só quisesse saber de festa e sacanagem”, desabafa Tiago.
As famílias dos seis integrantes já visitaram a casa, para conhecer o ambiente e os outros moradores. “O pessoal é bem tranquilo aqui. Vai morar todo mundo longe de casa? Então vou morar com alguém legal, claro, pra não ter brigas”, conta Warley. Quando questionados se um tem reclamações do outros, a resposta é não. Para eles é importante falar sempre sobre a convivência. Seguem a lição de que, se você trata o seu colega de casa com educação, você pode tratar falar sobre qualquer assunto. Eles avaliam que cresceram como pessoas morando em república, aprenderam a lidar um com os defeitos do outro, não invadir o espaço, ser paciente e adulto. Quando entraram eram seis adolescentes. Hoje, são seis homens (ainda não formados, pelo menos até a colação de grau).
Sobre meninos e meninas
Um forte laço de amizade uniu um menino e duas meninas na República Bigorna. Das poucas casas onde menino e meninas vivem juntos e vivem bem. Jôicy, Samara e Ramires vieram para quebrar todas as ideias de que república mista não dá certo. Os três convivem muito bem, e até mais que muitas repúblicas tradicionais Frutal afora. De todas as repúblicas entrevistadas, são os únicos que associam a vida conjunta que têm com um casamento. “Todos temos os números uns dos outros e dos pais também. Se alguém demora pra chegar em casa, ou coisas do gênero, estamos sempre telefonando. Já tivemos casos de acompanhar em médicos e ficar no pé até para tomar os remédios e comer direito”, conta Jôicy.
Com quatro quartos, sendo dois suítes, que são ocupadas pelas meninas, o trio divide as despesas e o serviços domésticos. Há organização para tudo, pra tirar o lixo, lavar a louça e manter os cômodos da casa limpos. O quarto, como em todas as outras, é responsabilidade de cada um. E o sistema de revezamento das tarefas domésticas funciona.
O nome bigorna está relacionado com a dualidade dos sexos dos moradores. Uma bigorna tem duas pontas, e, “assim como a bigorna foi um objeto criado para agüentar os golpes do ferreiro, assim também, a rep. Bigorna foi criada para que juntos, eles suportassem os golpes da vida”, afirma Jôicy. Os três têm a casa não apenas como abrigo, mas como um legado a ser deixado para os futuros moradores, pra que todos que vierem a morar na casa suportem a difícil vida de universitário.
Respeito em primeiro lugar. Na bigorna pode tudo, desde que o tudo não invada o espaço do outro. “A pessoa pode fazer o que quiser, até onde couber apenas ao dono do quarto, ou seja, coisas que atrapalham a liberdade dos outros moradores não são aceitáveis, como colocar o som muito alto, ou ficar conversando com muita gente”, conta Ramires. Para ele, o único menino da casa, é muito importante respeitar a individualidade das meninas, principalmente. “Pelo menos nunca vamos brigar por futebol, ou por estarem todos com TPM” diz.
As famílias reagiram de maneiras distintas. Uns aceitaram rápido, outros relutaram para quebrar o preconceito de que homens e mulheres não podem ser amigos e dividirem uma casa. A mãe de Jôicy, Júlia Francisca Franco Silva, diz que é normal para ela saber que a filha mora com um menino. A filha tornou-se mais responsável e morar em república mista é uma oportunidade para aprender a lidar com personalidades diferentes. Já os pais de Ramires não reagiram bem a princípio, mas após constatarem que o filho, Samara e Jôicy não teriam problemas de entrosamento, aceitaram.
A experiência tem mostrado que meninos e meninas juntos dão certo. Dão muito certo. A Bigorna é um exemplo de que pessoas de sexos diferentes podem ser amigos e, por quê não?, morarem juntos. “Com relação à convivência, existe sim um maior equilíbrio do que nas republicas de um sexo só. É complicado explicar, mas a casa parece ter uma moderação de gostos, opiniões... É bem divertido”, completa Ramires.
Casa é casa
De fato, repúblicas são moradias que funcionam tão bem quanto qualquer casa de família. São casas com quartos, banheiros, salas, cozinhas, varandas, roupas pra lavar, almoços, festas, brigas e fidelidade.
Todos os estudantes que vivem em repúblicas em Frutal sofrem algum tipo de preconceito pela escolha. A reação das pessoas com a frase “eu moro em república” nem sempre é positiva, e esse tabu se dá principalmente pelas pessoas não conhecerem a fundo como vivem esses estudantes.
Leitores, querem saber a mais pura realidade? Eles vivem como todos nós.































